• Ranulfo Pedreiro

Ponte cultural entre Brasil e Itália oferece curso com Elena Enrico

Uma cooperação entre Brasil e Itália vai permitir a realização do Curso de Enriquecimento BimboFisa - Suzuki Accordion Project em janeiro, uma iniciativa pioneira internacional com a educadora e acordeonista italiana Elena Enrico, dentro da programação da VI Maratona Flauta e Fole de Londrina, voltada para professores de acordeom. A aproximação tem apoio da Associação Musical Suzuki do Brasil - AMS Brasil.

Para entender melhor é importante, antes de tudo, conhecer um pouco do trabalho de Elena Enrico di Giorgio Dellarole, nascida em Turim e pianista desde os seis anos de idade. Elena teve uma carreira de concertista, acompanhou cantores, tocou em orquestras e fez trilhas para rádios, além de se apaixonar pelo acordeom e desenvolver estudos para o ensino musical para crianças pré-escolares.


Elena tornou-se pioneira ao aproximar o acordeom do Método Suzuki, criado pelo educador e músico japonês Shinichi Suzuki para dar uma educação mais ampla à criança, baseada na disciplina, no afeto e na proximidade entre professores, alunos e familiares.


A Maratona Flauta e Fole é um circuito cultural de apresentações, cursos e workshops coordenado pela professora Luciana Schmidt, voltado ao ensino da flauta doce e do acordeom pelo Método Suzuki em Londrina. É como se fosse um amplo festival multidisciplinar, capaz de levar os alunos a viverem experiências que ajudam na formação do caráter e extrapolam os aspectos musicais. A Maratona está na sexta edição e conta com direção artística do acordeonista Miguel Santos.


Como o ensino do acordeom no Brasil pelo Método Suzuki ainda é incipiente, Miguel Santos procurou Elena Enrico para conhecer o trabalho que a instrumentista desenvolve na Itália. Logo, uma ponte Brasil-Itália foi criada, com colaborações mútuas.


Elena Enrico viria pessoalmente ao Brasil para ministrar seu curso de acordeom, baseado no método BimboFisa, desenvolvido por ela com inspiração no Método Suzuki. Mas a pandemia atrapalhou os planos e levou as aulas para o universo virtual.


Por isso o Curso de Enriquecimento BimboFisa - Suzuki Accordion Project, com Elena Enrico, será virtual e está aberto para interessados de todo continente americano e europeu. As aulas vão contar com dois formatos: ao vivo e transmissão de aulas gravadas, ambos pelo Zoom.


O trabalho de Elena Enrico como educadora conta com mais de 40 anos de experiência e inclui a aprovação, em 2012, pela European Suzuki Association após uma longa pesquisa, que resultou na cartilha BimboFisa.


O curso, portanto, pretende detalhar aos professores de acordeom todo o material do BimboFisa, incluindo a iniciação musical do acordeom para crianças e o repertório do Suzuki Accordion Project. As aulas começam no dia 9 de janeiro e prosseguem em módulos específicos até 24 de janeiro. Para participar, o músico precisa ter feito o primeiro curso de filosofia Suzuki ou similar. O curso está aberto a instrumentistas da América e da Europa. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas aqui.


Confira a entrevista com a educadora e instrumentista Elena Enrico, com tradução de Miguel Santos:


A sra. começou a estudar piano aos seis anos de idade e se formou muito cedo no instrumento. Como a sra. descobriu o acordeom?

Elena Enrico - Na minha família de origem, a música sempre foi parte integrante de estarmos juntos. Meu pai, que tocava violão e piano como amador, costumava receber amigos e parentes em noites musicais: cantavam e tocavam bandolim, clarinete, acordeom, piano, violão... Faziam música popular, canções de época, árias de ópera, romances. Desde aquela infância distante, apesar de ter feito estudos clássicos ao piano, o acordeom permaneceu no meu coração e foi um presente maravilhoso do meu marido e dos meus filhos. Assim que o abracei, imediatamente imaginei que um dia poderia se tornar um instrumento da família Suzuki e oferecê-lo a tantas crianças em todo o mundo.


Como a sra. se interessou pela Método Suzuki e como foi esse trabalho de adaptar o acordeom à metodologia?

Elena Enrico - Conheci o método Suzuki em 1984, apoiando em seu trabalho como pioneiros na Itália os mestres Lee Robert e Antonio Mosca, fundadores do Centro de Talentos Suzuki em Torino, a primeira escola em nosso país. Os princípios da filosofia e do método que S. Suzuki soube codificar no seu ensino instrumental são as bases da aprendizagem da língua materna: escuta, imitação, repetição, memorização. Esses passos simples são a maneira mais natural de qualquer criança desenvolver habilidades. Além disso, por meio do estudo de um instrumento, são oferecidos à criança inúmeros estímulos que desencadeiam grandes avanços não apenas na esfera musical. O caminho metodológico inclui aulas individuais nas quais os pais também participam ativamente, aulas em grupo, aulas de orquestra e participação em eventos públicos. O pai é o verdadeiro professor de seu filho, enquanto o professor é o especialista que oferece a chave para iniciar um caminho que sempre construirá novos conhecimentos na criança. A dificuldade é fazer os pais entenderem seu papel como educadores e o quanto a música deve fazer parte de sua família.


O acordeom é considerado um instrumento difícil, que exige muita coordenação. Como despertar as crianças para o instrumento? O tamanho do acordeom não acaba dificultando o interesse?

Elena Enrico - O acordeão, como outros instrumentos Suzuki que são construídos ou adaptados em diferentes tamanhos, “cresce” com a criança. Muitas associações ou escolas italianas fornecem às famílias pequenas ferramentas para começar.


Quais são os principais aspectos que a sra. prioriza no ensino do acordeom?

Elena Enrico - Acho muito importante não deixar de lado uma boa configuração postural. Algumas más atitudes são difíceis de corrigir posteriormente e podem criar impedimentos técnicos. Assim como o arco para violino, o fole é a fonte sonora e a respiração do instrumento, portanto existem exercícios e jogos para começar o uso correto do fole, bem como aqueles relativos à coordenação, ritmo, bases harmônicas, sempre envolvendo o uso de todo o corpo, do canto e da colaboração entre professor, criança, pai. Percebi que as crianças ficam imediatamente impressionadas com o acordeão por seu som, dinâmica, integridade harmônica e aparência.

Embora seja um instrumentos com muitos recursos, o acordeom no Brasil é muitas vezes associado apenas à música regional, de origem rural ou suburbana, que tem muito valor mas acabam, também, restringindo a ação do instrumento. Como vencer essas barreiras e mostrar que o acordeom pode ser incorporado a qualquer tipo de música?

Elena Enrico - A resistência, às vezes, vem de adultos que ainda olham com desconfiança para este instrumento, imaginado por muito tempo, em papéis e repertórios puramente populares. Hoje está presente em diversos conservatórios e seu repertório clássico se difunde também graças a gravações e concertos de importantes professores e músicos. Acho que a melhor maneira de mudar a mentalidade difícil e profundamente enraizada é a paixão e a confiança conquistada pelo exemplo.


Como é a experiência do ensino à distância, pela internet? Os resultados são positivos?

Elena Enrico - Por último, o espinhoso problema do ensino à distância. Uma das características mais importantes da linguagem musical é o todo. Brincando, trocando experiências, ouvindo, oferecendo, aprendendo... Na aula, conversamos com a criança através do instrumento, o aluno que chega para a próxima aula junta-se para tocar algo, o mais velho faz com que os pequenos escutem uma música que eles vão sonhar em poder tocar por sua vez... Não, eu diria que a aula online foi e talvez ainda seja uma exigência hoje em dia, mas certamente não é uma boa opção sempre.


As inscrições para o curso de Elena Enrico podem ser feitas por intermédio da ficha da Maratona Flauta e Fole.

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