• Ranulfo Pedreiro

Alquimia, novo disco de Mateus Gonsales Trio, vai alem do que se ouve

Atualizado: Jun 27


Os músicos do Mateus Gonsales Trio se reuniram no palco do Teatro Ouro Verde, no fim do ano passado, para gravar o disco Alquimia. Mesmo com o espaço fechado por causa da pandemia, a produção seguiu os protocolos de segurança e os três dias de gravação conseguiram captar o clima de apresentação, abrindo as portas para o improviso, tão importante para a linguagem do grupo. Alquimia é um disco autoral, voltado à composição e às possibilidades que ela apresenta. “Quando a gente compõe, mostra todas as influências e características”, comenta Mateus Gonsales.


O álbum foi lançado na sexta-feira (25) e conta, além do pianista e compositor, com Thiago Alves (contrabaixo) e Roger Aleixo (bateria). O repertório intercala músicas próprias e clássicos como Carinhoso, de Pixinguinha, e o segundo movimento da sonata Patética, de Beethoven, sem perder a digital criativa do grupo. O novo disco foi disponibilizado nas plataformas digitais (Spotify, Deezer, Apple Music e Google Play) e também poderá ser adquirido, em formato físico, pela Tratore.


Alquimia é o segundo disco autoral de Mateus Gonsales. O primeiro, chamado Mateus Gonsales Trio, foi lançado em 2017. A formação, muito adotada pelo jazz, possibilita que o pianista apresente sua obra de forma descontraída, mas ao mesmo tempo com grande capacidade expressiva, destacando tanto o compositor quanto o instrumentista.

Algumas músicas, como Time Lapse 2020 e Alquimia, refletem as incertezas dos dias de hoje, quando o tempo parece modificado e as dúvidas pairam sobre os sons como se esperassem um desfecho menos trágico para a pandemia.


Em outros momentos, Mateus Gonsales prefere reinterpretar clássicos em harmonias ousadas, conquistando assim maior liberdade melódica. Dessa forma, o intérprete acaba se apropriando de grandes obras para oferecer uma versão única, respaldada pela experiência musical.


Além do contrabaixista Thiago Alves (São Paulo), que toca na Banda Mantiqueira, e do baterista Roger Aleixo (Londrina), cuja percussão melódica combina perfeitamente com o piano de Mateus Gonsales, o disco ainda conta com a participação especial de Marcello Casagrande, parceiro do Duo Clavis, ao vibrafone, e de Annalisa Powell na flauta transversal.



Mateus Gonsales é natural de Londrina. Formado em Jazz e MPB pelo Conservatório Musical e Dramático de Tatuí e pós-graduado em produção fonográfica pela UNOESTE (Presidente Prudente). Foi aluno de Magali Kleber, Paulo Braga, André Marques, Mário Loureiro, Rafael dos Santos e Ian Guest. Estudou regência com o maestro Othônio Benvenuto e arranjo de big-band com Paulo Flores. Integra o Duo Clavis desde 2011.



ALÉM DO QUE SE OUVE

O lapso de tempo entre o primeiro e o segundo disco do Mateus Gonsales Trio foi compensado pela qualidade, embutida em composições próprias ou releituras surpreendentes. É o caso de Carinhoso, clássico de Pixinguinha, sacralizado de tal maneira que acrescentar algo torna-se raro e, principalmente, arriscado. Mateus carrega a bela valsa-choro para sua própria linguagem jazzística, tomando todo o cuidado no transporte. O cristal melódico não se quebra com a ousadia, pelo contrário, ganha transparência pela verdade harmônica impressa na música. Como pianista, Mateus não exibe o virtuosismo. Deixa os espaços necessários para respiro, colocando o ouvinte em uma posição de co-criador a partir da própria imaginação. Há uma transcendência evidente, seja pelo tratamento dos temas, ou mesmo explícita em obras como a música Alquimia, quando o conhecimento ancestral parece guiar nossos passos, oferecendo alívio espiritual para dias tão difíceis. A música do Mateus Gonsales Trio vai além do que se ouve, e esse espaço indefinido é a ponte entre razão e sentimento, à qual também chamamos arte.



ENTREVISTA COM MATEUS GONSALES


O trio é um formato muito admirado pelo jazz, que costuma oferecer bastante liberdade. Como você optou por esta formação?

Para nós, pianistas, é um trabalho que tem que ser feito, principalmente nesta coisa da música criativa, da improvisação. Os grandes pianistas de jazz conseguiram apresentar o seu trabalho em trio. Foi dessa maneira que eu quis me apresentar com composições autorais. Tanto que, no primeiro disco, eu toquei apenas uma música que não é minha. A gente sonha em ter um CD de piano solo, que eu acho bem mais complexo do que um piano em trio. Eu tenho vários trabalhos com o Vitor Gorni, com o Marcello Casagrande (Duo Clavis), mas são trabalhos em que eu sou um instrumentista, não um compositor. Com o trio eu consegui colocar uma identidade. E a melhor identidade é a composição. Quando a gente compõe a gente mostra todas as nossas influências e características.


Como foi a seleção dos músicos?

Eu tenho uma amizade de muitos anos com o baterista Roger Aleixo. A gente tem um contato musical forte. Ele sempre estava ouvindo as coisas que eu apresentava. Às vezes eu penso em alguma coisa e o Roger entende na hora.

O Thiago Alves é de São Paulo e esteve em Londrina em 2017. Eu estava tocando com a banda Cinemática, ele apareceu por lá e conversamos bastante sobre som. Com o tempo, a gente ficou muito amigo. O Thiago tem um nível bem alto, para mim é um dos melhores do Brasil. É um cara do som, o negócio dele é resolver.


Vocês gravaram no Teatro Ouro Verde, ao vivo, todo mundo junto...

Os dois discos do Mateus Gonsales Trio foram feitos mais ou menos do mesmo jeito, tocando juntos. É uma verdade em que eu acredito muito. E deu certo. Com o Trio, eu falo: “Vai ser desse jeito”. A digital é do artista em questão. Eu quero deixar alguma coisa neste mundo, alguma coisa minha. É o momento em que consigo colocar a minha identidade e tenho amigos que me ajudam nisso.

FAIXA A FAIXA:


1) Dai (Mateus Gonsales)

Um dia, apareceu uma melodia… Eu achei tão bonita que resolvi fazer uma música para minha esposa. Foi uma melodia que aconteceu e ficou com uma cara bem brasileira, com identidade. Acabou ficando em um compasso 5/8 bem solto, bem contemporâneo.


2) - Estrela do Pôr do Sol (Vinicius Dorin)

O Vinícius Dorin tocava com o Hermeto Pascoal e chegou a ser meu professor. Ele fez um show com o disco chamado Revoada, e tocou essa música. Eu fiquei parado! Estrela do Pôr-do-Sol é uma homenagem ao pai de Vinicius Dorin, que já havia morrido. Ele olhava para uma estrela e via o pai. Essa música me tocou profundamente. Eu gravei só com o piano e o contrabaixo. E coloquei um moog para lembrar a sonoridade do Vinicius Dorin, que tocava saxofone. É uma referência a um ídolo.


3) - Trickin’ Blues (Mateus Gonsales)

O Trickin’ Blues tem um monte de coisas que não são do blues. A música é em 7/8 e não tem 12 compassos, como o blues tradicional, mas apenas 8. Também tem uns truques de harmonia. São pequenas enganações, por isso se chama Trickin’ Blues. Eu não queria me preocupar com essa música. Fiz a levada e fechei a música sem ter o tema. Eu queria dar risada, chegar lá e tocar. E ficou bem solto, mesmo.


4) - 2º movimento da Sonata para piano nº8, Op. 13 - Patética (Beethoven)

Ouço a melodia dessa música como uma canção. Eu gosto muito de Beethoven e tocava quando estudava piano erudito. Nesta gravação, tentei não mudar muita coisa, eu queria que a melodia ficasse na cabeça dos ouvintes. Deixamos a música falar sozinha e não tivemos muita intromissão. Na parte A, eu toquei exatamente como está na partitura. Na segunda parte, entra o contrabaixo e os acordes mudam. De certa forma, mostra de onde eu vim. Estudei piano erudito e amo a escola do piano.


5) - Time Lapse 2020 (Mateus Gonsales)

É o reflexo de tudo o que aconteceu nesta pandemia. A gente via o dia amanhecer e anoitecer consecutivamente. Como um efeito de time lapse, o mundo lá fora passava muito rápido, enquanto a gente estava preso dentro de casa. A ideia da composição é uma coisa muito parada, que não acontece. Ao mesmo tempo, tem uma melancolia, fica aquela coisa que vai mas não vai, uma harmonia que vai andando bem devagar. Passou um ano e não aconteceu nada. Eu queria muito que o Marcello Casagrande (vibrafonista que toca com Mateus Gonsales no Duo Clavis) fizesse uma participação neste disco.


6) - Carinhoso (Pixinguinha)

Eu sempre gostei de Carinhoso, e este arranjo eu fiz durante a pandemia. A coisa que eu mais gosto é brincar com a harmonia. Peguei a sequência do final, dupliquei e improvisei em cima. Gostei bastante da versão que foi para o disco. Este é o Carinhoso que eu gostaria de tocar.


7) - Alquimia (Mateus Gonsales)

Fiz essa música em um ensaio, tinha toda a base harmônica, mas não a melodia. Quando terminei, não tinha nome. Mas Alquimia foi um nome que deu força à composição. E traz essas coisas da incerteza, da insegurança que a gente sente hoje. Essa sensação tem tudo a ver também com a música Time Lapse 2020.


8) - Pra não ficar só em minhas palavras (Thiago Alves)

O Thiago Alves me pediu para colocar uma música dele no disco. Mas, nas vezes em que fomos ensaiar, a música não estava pronta. Nem existia, na verdade. E o Thiago veio para Londrina sem a música. Na noite anterior ao último dia de gravação, ele falou: “Vou fazer agora”. Ele fez à noite e a gente gravou no dia seguinte. O Thiago é muito classudo, fez uma música bonita e fácil de tocar. Eu adorei.


9) - Correndo atrás do rabo (Mateus Gonsales)

Essa música tem um nome meio esquisito. Minha esposa tinha um cachorrinho que ficava correndo atrás do rabo. Era muito rápido, e eu achava isso demais. A música fica dando voltas, e os acordes que preparam a volta podem mudar. Então fiz uma introdução com a harmonia mais contemporânea, mas com a mesma ideia de estar sempre voltando. Depois que a gente conta essa história, o nome que parecia esquisito fica doce.


Site: www.mateusgonsales.com

Instagram: @mateusgonsalesmusic

YouTube: Mateus Gonsales

Facebook: @mateus.gonsales


Mateus Gonsales: piano

Thiago Alves: contrabaixo

Roger Aleixo: bateria

Marcello Casagrande: vibrafone

Annalisa Powell: flauta


Produção executiva: Janete El Haouli - TOCA arte ação criação

Técnico de gravação:Júlio Anizelli

Auxiliar técnico: Marcello Casagrande

Mixagem e masterização: Clement Zular

Fotos: Ber Sardi e Bruno Baruta

Patrocínio:

Amadeus Cervejas Especiais

A.Yoshii

Raul Fulgêncio


Apoio:

Casa de Cultura da UEL

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