• Ranulfo Pedreiro

Nocturnal Geometries, um disco fundamental de Andrey Goncalves

A primeira coisa que salta aos ouvidos no disco Nocturnal Geometries, de Andrey Gonçalves, é que o autor sabe o que está fazendo. E faz bem porque tem conhecimento. Mas, falando assim, parece que o disco é excessivamente técnico, quando a audição flui e é prazerosa, muitas vezes provocando e surpreendendo o ouvinte.

Vamos aos fatos: Nocturnal Geometries é um ótimo disco de jazz composto e interpretado por um contrabaixista que, por vezes, não esconde o sotaque brasileiro, mas não se prende a ele.


A brasilidade aparece sem ser obrigatória ou estigmatizada. Uma das qualidades é justamente incorporar as contribuições dos instrumentistas que compõem um irretocável sexteto.


Estudando com Jim Pugh, professor de composição que já deu aulas para Chick Corea, Andrey Gonçalves compôs as faixas do disco a partir de alguns desafios que, entre outros benefícios, ajudaram a sair da zona de conforto. O primeiro deles consistiu em colocar quatro dedos aleatoriamente no piano e compor a partir das quatro notas tocadas. Foi assim que surgiu a música que abre o disco, Quadrad.


Outro exercício era compor utilizando as pentatônicas do blues, mas com um detalhe: a obra não poderia ser um blues. Andrey compôs This is not a blues.


Por e-mail, Andrey Gonçalves conversou com a Máquina do Som:

Ranulfo Pedreiro - Como é a sensação de colocar em prática os conceitos que você vinha estudando com Jim Pugh? Até que ponto essas aulas influenciaram a composição dessas obras?

Andrey Gonçalves - Eu sempre me senti privilegiado por fazer aula com ele. Entender o que ele me ensinou, colocar em prática e transformar tudo em um disco foi um grande passo na minha carreira. Sinto muita gratidão pelo que aprendi e as aulas influenciaram 100% nas composições pois todas elas foram compostas como exercícios para as aulas do Jim.


Compor é um ato solitário… Como é ouvir suas composições após a gravação? O compositor é capaz de se surpreender com o próprio trabalho?

A primeira audição da gravação foi emocionante. Eu chamei um time de primeira para gravar minhas músicas, pessoas em quem confio cegamente. Eu sabia que o produto final seria muito bom. Mas eu também confesso que alguns momentos me surpreenderam muito, pois ficaram melhor do que eu esperava. Além disso, algumas músicas soaram bem diferente do planejado e isso fez toda a diferença, para melhor, lógico!


Você também é arranjador, mas deixou os arranjos do disco para o trombonista Ethan Evans… Você acha interessante a obra ganhar a colaboração de outras mãos?

Sim, é muito importante o músico evitar querer ter o controle total de todos os processos de concepção do disco. É importante confiar nos profissionais envolvidos e deixar que eles também imprimam as suas personalidades musicais. Quando eu comecei a arranjar o disco, eu achei que eu estava envolvido demais no processo de composição. Muitas músicas já estavam arranjadas, mas eu precisava de uma influência externa no processo. Chamei o Ethan para dar uma unidade no conceito estético do disco.


O disco tem esse clima de intimidade entre os músicos, como se fosse ao vivo, e vc diz que as sessões de gravação foram rápidas. Não são obras simples, e possuem amplo espaço para o improviso. Mesmo assim, o grupo tocou como se essas obras estivessem no repertório há anos… Como foram essas sessões de estúdio?

Foram inacreditáveis! Tinha muita coisa acontecendo no momento. Além do inverno rigoroso e muita neve, tinha muita coisa acontecendo na vida de todo mundo. Acho que foi uma grande uma realização

estarmos todos no mesmo local, porque nos víamos nos corredores da universidade, admirávamos muito a musicalidade do outro, mas raramente tocávamos juntos. Portanto, foi um momento de alívio quando paramos tudo na vida e decidimos apenas fazer música. Extravasamos nossas emoções que estavam acumuladas.


Suas composições têm a capacidade de unir os aspectos teóricos da composição, mas também são prazerosas de ouvir. Como equilibrar técnica e emoção?

O Jim analisava minhas composições, elogiava o que estava bom e depois falava: “Você seguiu a regra muito bem! Agora vai lá e quebra a regra pra transformar isso em música”. Além disso, ele sempre elogiou minhas melodias e disse que é uma mistura bem única dos estilos musicais que me influenciaram ao longo da minha carreira que são música brasileira, rock progressivo e jazz.


Quais são os maiores desafios do jazz contemporâneo?

O jazz contemporâneo anda numa linha bem tênue, que promove fusões musicais que podem ser consideradas uma heresia pelo público mais tradicional do jazz. Portanto, tem que saber como vender sua música para não perder o público.


Você diz no disco que manteve uma rotina de composição. Você ainda compõe com frequência? Até que ponto essa disciplina é importante para a criação?

Por conta da correria de ser professor, pai e marido, eu sempre gravo ideias no meu celular e depois escrevo tudo num caderno onde registro minhas ideias que podem virar música num futuro próximo. Eu aprendi com o Jim a fazer esse caderno de ideias e ele me pedia para criar, além das músicas dos exercícios, pelo menos 5 novas ideias por semana. As ideias podiam ser desde um fragmento de melodia, um groove no baixo, uma levada na bateria, ou um acorde diferente que toquei no piano e gostei da textura do som. É importante você registrar as ideias pois nunca sabe quando elas vão te revisitar e "pedir para serem concluídas".


A pandemia tem afetado o mundo todo, mas os músicos, particularmente, sofrem com a falta dos palcos… Como você foi impactado pela Covid-19? Os Estados Unidos estão fazendo uma campanha maciça de vacinação… A vida está voltando ao normal? Você sente muita falta dos concertos?

Bem, eu tive que cancelar a apresentação do meu sexteto em vários festivais de jazz onde eu lançaria meu disco. Também fiquei bem desanimado com o momento e posterguei o lançamento do Nocturnal Geometries. Agora a vida está voltando ao normal, aos trancos e barrancos. Com boa parte da população vacinada e a chegada do verão, os bares estão começando a oferecer atrações ao vivo nas áreas externas. Eu toquei ao vivo pela primeira vez com a orquestra de uma opereta – The American Hammer - na semana passada. Foi num anfiteatro, aberto ao público, mas ainda com todos os rigores: máscara e distanciamento social. Sim, os shows fazem falta. Champaign-Urbana tem uma vida cultural muito forte e um complexo de casas de concerto gigante (Krannert Center for the Performing Arts). Já vi muito shows e festivais bons aqui e esse hiato não me fez bem.


Você compõe e toca contrabaixo. É difícil não pensar em Charles Mingus… Quais são suas referências musicais?

Essa é uma pergunta capciosa... rs. Bem, como baixista me considero uma mistura bem única de cinco fatores: Ray Brown, Jaco Pastorius, Luizão Maia, Avishai Cohen (o baixista) e Geddy Lee (baixista do Rush). Como compositor, eu considero a música brasileira a minha maior influência. Em questão de arranjos, acho que os discos do Charles Mingus, Oscar Peterson, Art Blakey e Duke Ellington são os que mais me influenciam.


Como a música instrumental brasileira é vista no exterior? Qual a importância da nossa contribuição para o cenário da música instrumental?

A música instrumental brasileira é muito respeitada, principalmente pelo aspecto melódico e rítmico. Muitos músicos e artistas ainda não foram descobertos por aqui. Portanto, cabe a nós, músicos brasileiros que moram aqui, fazer essa ponte e apresentar as gerações antigas e novas ao público daqui. Eu mesmo sempre incluo músicas do Hermeto ou do Rio65 Trio no meu repertório. Gosto de sempre mostrar algo novo a quem vai aos meus shows. A Bossa Nova incluiu a música brasileira no cenário da música instrumental pois foi a primeira a ser incorporada ao repertório tradicional de jazz. Hoje o samba, o baião e o choro são estilos muito procurados por músicos que querem expandir o conhecimento sobre música brasileira. Em 2017, eu tive o prazer de ensinar uma turma de prática de conjunto jazz que me pedia para tocar músicas do Hermeto, Toninho Horta e Guinga.



Faixa a faixa do disco com entrevista de Fábio Cezanne:

1-Quadrad: O nome vem de uma técnica que eu utilizei pra compor, você coloca quatro dedos posicionados aleatoriamente no piano e a partir dessas notas constrói uma escala sintética com modos e acordes. Quadrad começou como uma salsa, mas migrou para o que foi gravado.

2-This is not a blues: Meu professor me pediu pra compor uma música usando a pentatônica blues, mas a música não poderia ser um blues. Num fim de semana, fui visitar a tia da minha esposa em Crestwood, Kentucky. O local é paradisíaco, todo rodeado por mato e vida selvagem. Sentei-me na varanda da casa e comecei a esboçar umas ideias. Com 20 minutos, a música estava pronta. Em 2018, quando estava fazendo uma temporada com um pianista em Ouro Preto, mostrei a composição, o cara leu e comentou: “Nossa, isso soa muito como Art Blakey”. Acabei arranjando na estética do Art Blakey. Essa é a música mais “jazz tradicional” do disco.

3-Anna and the Moon: Essa faixa é a única que tem uma história longa a respeito dela. Também utilizou a técnica “quadrad”, mas simplifiquei bastante na concepção de melodia e harmonia porque queria uma balada mais melancólica. Usei essa faixa para homenagear uma enfermeira chamada Luanna. Em dezembro de 2018, fui visitar minha família no Brasil com minha esposa. Estava atravessando uma rua de Vitória (ES) com minha esposa e uma moto me atropelou. Fui parar na UTI com traumatismo craniano... Foi foda. A minha sorte é que uma enfermeira estava passando na hora do acidente e me socorreu, chamou a ambulância. O nome dela é Luanna, nunca a vi, não sei como é o rosto dela... Só sei que ela existe porque minha esposa me conta dela. Estou vivo por causa dela. O nome da música é uma “brincadeira” com o nome dela: Lua e Anna. Aí fiz de uma forma que fizesse sentido em inglês. O título também é um palíndromo, com palavras com 4 e 3 letras - Anna (4), and (3), the (3), Moon (4). Anna e Moon também repetem a letra do meio (nn-oo). Anna também é um palíndromo.

4-Waterfall for a Cubist Passion: Fiz essa música inspirada por uma pintura do Picasso que vi no Guggenheim de Nova Iorque em 2012. A pintura não representava uma fase clássica do Picasso, mas me marcou muito. Compus tudo como se fosse uma história de uma paixão, usando a técnica de through-composed (onde as seções da música raramente se repetem e seguem para uma nova parte). Essa música já estava arranjada para octeto há anos, mas adaptei para o disco. É a faixa que obtém mais comentários positivos do público.

5-The Tree of All Inventions: Fiz essa música baseada numa ilustração que explica a riqueza da cultura brasileira. A ilustração é um totem com elementos que são muito peculiares à nossa cultura. A música em não tem nada de brasileira porque eu não queria soar tão óbvio. Preferi a inspiração para compor e, na hora da gravação, sugeri ao baterista que incluísse elementos da ciranda brasileira.

6-Ocatonic Lullaby: Eu tive que compor uma música usando a escala octatônica, uma escala simétrica de oito notas, às vezes organizada em meio tom e tom... ou tom e meio tom, o que confere um som bem angular, duro. Peguei uma das formas de organização e fui analisando até quebrar o padrão e compor uma canção de ninar. Acho que compus essa música em uma hora. Quando acabei de compor, tive uma sensação muito forte, liguei pra minha esposa e comentei: "Acabei de compor a canção de ninar pro nosso primeiro filho”. Sophia só nasceu em 2021, mas ela acompanhou o processo de mix e master do disco dentro da barriga da barriga da mãe.

7-Mancada: Sambinha duro pra fechar o disco porque eu sou brasileiro e queria pelo menos ter uma faixa que fosse mais um “lugar comum” pra mim. Mancada foi composta usando fragmentos de frases e com a ideia de deixar bastante espaço pra bateria solar. Além da intro, que é bem chata de tocar, o “refrão” de Mancada tem uma modulação métrica entre 2/4 e 6/8 que entorta a cabeça de quem tenta tocar. Essa foi a única música que tivemos que repassar na gravação porque a geral mandou mal na primeira passada... Portanto, rolou a maior mancada no estúdio... rs.



Ficha técnica

Andrey Gonçalves – Contrabaixo e Baixo Elétrico

Kurt Reeder - Piano

Andy Wheelock - Bateria

Robert Brooks - Saxofone Tenor

Robert Sears - Trompete

Ethan Evans - Trombone

Produzido por Andrey Gonçalves

Todas as composições de Andrey Gonçalves (Kopishawa Music).

Arranjos: Ethan Evans.

Gravado em nos dias 18 e 19 de janeiro de 2019, no Unit One Studios em Urbana, IL.

Engenheiro de áudio: Derick Cordoba.

Mixado por Joe Corley, Pint Size Studios (Crystal Lake, IL).

Masterizado por John Tubbs, Jetman Music Services (Champaign, IL).

Fotografias por Jeff Janczewski.

Arte por Leonardo Zamprogno.

Kopishawa Music – Todos os direitos reservados.

37 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo