• Ranulfo Pedreiro

O Encontro

Dias desses saí para caminhar na zona rural. Como vivo um pouco afastado da cidade, basta andar uns 500 metros e já encontro uma estradinha de terra. Que me leva longe, além, e conta histórias incríveis.


Bom, a ideia era andar uns 20 quilômetros, daí é preciso uma mochila capaz de carregar uns 2 litros de água sem incomodar, e um bastão de caminhada. O bom dessa mochila - a camelbak - é conseguir se hidratar o tempo todo, sem parar. O bastão evita quedas quando as pernas titubeiam, e isso é sério quando você anda longamente por estradas sem acostamento, cheias de pedras.


A paisagem do interior é rica. Apresenta mosaicos coloridos, entre plantações e matas, além da terra vermelha, que também varia de tom. O Paraná é bonito demais.


Já tive alguns encontros inusitados nessas caminhadas… Uma vez um motoqueiro caiu na minha frente. Outra, encontrei um cara totalmente perdido - não é difícil, eu mesmo já me perdi. Houve até um sujeito que me confundiu com um bandido, mas isso é outra história. O importante é que terminou bem.


Segui pela estrada do Caramuru, passando pelo curioso Sítio das Cobras, onde fabricam soros e, por causa do nome, nunca tive curiosidade de descer até lá. Hoje lido melhor com as serpentes, mas ainda tenho medo.


Encontrei uma araucária belíssima perto da Colônia Lorena, fundada por japoneses nos anos 30, em Cambé. Fiz a foto e, ao olhar pela estrada vi, ao longe, um ponto preto. Só podia ser uma pessoa. Estranho, porque naquela estradinha de cascalho ninguém anda a pé. Só eu.


Segui mais uns dois quilômetros, pensando no andarilho que ficava para trás. Cheguei próximo à comunidade rural do Saltinho, mas resolvi voltar. Estava longe, cansado e a água já estava por um quarto.


Dei de frente com o sujeito, também vestido de preto, com roupas esportivas muito parecidas, e um bastão de caminhada. Até o boné era semelhante ao meu. Foi uma surpresa. Tanto que paramos para conversar.


O sol estava a pino e o rapaz exausto, suado, resfolegando. Perguntou se a estrada sairia no Patrimônio Caramuru, não sabia ao certo para onde ia. Também trazia uma mochila com água.


Respondi que o Caramuru estava a uns três quilômetros de distância. Ele contou que, de lá, pegaria a estrada da Bratislava até chegar em casa. Achei uma loucura. O rapaz não tinha condições de fazer uma caminhada tão longa, geralmente rota de ciclistas.


Falamos sobre caminhadas, calor e equipamento, mas evitamos entrar na loucura do encontro inusitado, no meio do nada, entre dois praticantes de um esporte tão peculiar. Enim, não descobrimos nada um do outro. A inclemência do sol nos forçou a seguir caminho, cada um para seu lado.


E foi na subida difícil, onde reencontrei a majestosa araucária da Colônica Lorena, que fiquei divagando como toda aquela região já foi um mar de araucárias, perobas e figueiras, todas hoje raras, escassas.


Talvez não seja boa ideia pensar tanto com o sol queimando a cabeça, pois os devaneios afloram quase incontroláveis, até que me fixei no estranhamento do sujeito na estrada, tão familiar, e cheguei à conclusão improvável de que havia me encontrado comigo mesmo. Sim, e eu não gostei muito de mim, eis a verdade.


Aquela desconfiança disfarçada de conversa à toa era muito minha. O outro eu estava perdido na vida, talvez como estou agora, não nos diferenciamos e a comunhão de similaridades nos repeliu automaticamente, foi isso. Como dois imãs confrontados no mesmo polo.


Os rumos são fáceis de se apontar - Caramuru está logo ali - mas difíceis de se seguir.


Melhor acelerar o passo enquanto ainda sei o caminho de casa.


(Foto e texto: Ranulfo Pedreiro)




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