• Ranulfo Pedreiro

Requiem para uma arvore condenada


Por Ranulfo Pedreiro


Quando chegamos pela primeira vez na casa onde passaríamos a próxima década, encontrei uma larva debaixo do pequeno ipê branco. Era grande, esbranquiçada, com fortes mandíbulas horizontais - uma broca. Deixei-a tranquilamente sobre a grama, não tinha ideia do que se tratava. Não imaginava, no entanto, que poderiam haver outras, enterradas.


Nosso ipê cresceu com aquela vontade juvenil de conquistar o mundo. Logo ultrapassou as cabeças e passou a oferecer uma sombra farta e fresca. Para as crianças, o balanço foi amarrado no galho mais baixo e forte. Era uma árvore generosa e eterna.


Cresceu tanto que se embrenhou nos fios dos postes. Tentei podar, mas a tarefa era arriscada demais, despertando um pânico secreto de choques. Espichou até se tornar o maior ipê da rua, marcando todas as estações com a precisão da natureza, ignorada pelos relógios.


As flores surgiam no fim do inverno, entre agosto e setembro. Antes, perdia todas as folhas, o que provocava a reclamação de alguns vizinhos. Varriam incansavelmente as calçadas, eliminando cada folhinha que pousasse sobre a grama.


Em nosso quintal, as folhas se acumulavam. Depois, vinham as flores, muitas e intensas, rápidas e efêmeras. Duravam no máximo dois dias, despencando murchas para as calçadas, cobrindo os carros que adormeciam distraídos pela rua.


Não acabava aí. Então, apareciam as sementes, com a mesma fartura. Espalhavam-se facilmente, e logo minúsculos ipês brotavam por todos os cantos, na grama, nos vasos, pelos vãos do piso ou mesmo entre as plantas. Era preciso arrancar um por um, com a paciência de quem ama uma bela árvore, mas não pode deixá-la conquistar o mundo.


O prenúncio do fim veio quando alguns galhos perderam, inexplicavelmente, as folhas fora de época. No verão, sua folhagem era fechada e vasta. Mas, naquele ano, estava rala. No chão, junto ao tronco, surgiu uma vala. A raiz quebrou-se e a árvore, enorme, inclinou em direção à casa. Lembrei-me da broca.


Foram dias tensos. Cortar uma árvore não é uma tarefa legalmente fácil. Concordo com todos os filtros de proteção, mas eles não podem complicar a vida de alguém que está com a casa em risco. O imbróglio burocrático durou meses.


Enquanto isso, o ipê arqueado nos ameaçava com sua imponência. Durante um temporal, fiquei de vigília. Tinha certeza de que a árvore cairia, com seu tronco bambo oscilando com os ventos. Mas ela aguentou: um dos galhos mais fortes segurava-se nos cabos da iluminação pública.


Um dia, chegaram os homens e suas motosserras, mas cortar uma árvore majestosa não é tarefa simples. O primeiro subiu com decisão, mas, já no alto, o tronco balançou e o moço apavorou-se feito um menino, descendo rapidamente. Achou que o ipê tombaria com o peso.


Foi preciso desmembrá-lo, como os gângsters, em filmes, fazem para livrar-se dos cadáveres. Galho por galho, a árvore foi desbastada, até sobrar apenas o tronco, nu e altivo. Só tombou amarrado ao trator, puxado impiedosamente.


Deixou-nos o toco na calçada, alguns pedaços transformados em bancos, e muitas memórias . O vazio foi enorme em frente da casa e maior ainda dentro da gente. Despedimo-nos como a um parente que lutou determinado contra a morte.


Eventualmente, uma culpa me espezinha. Não se acaba assim, puxando a trator, com uma árvore. Nenhuma outra ocupou seu lugar. Ainda vivemos um disfarçado luto.

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