• Ranulfo Pedreiro

Venha ver o afogado


Estava folheando um livro antigo de crônicas do Vinícius de Moraes, quando ele me sai com essa:


“Se fosses louca por mim, ah eu dava pantana, eu corria na praça, eu te chamava para ver o afogado”.


As lembranças, então, surgiram incontrolavelmente. Não por conta da paixão exacerbada - o texto chama-se Chorinho para a amiga e é de 1944 -, mas pelo afogado, mesmo.


Durante a infância, em Paranaguá, íamos à praia quase todo fim de semana. A paisagem, confesso, era bem diferente, com pouca urbanização e uma faixa de areia maior, escondendo, sob o sol escaldante, uma plantinha endiabrada que espetava os pés.


A água deveria permanecer na altura dos joelhos. Não podíamos ir além, sob o risco de ser retirados, em castigo, para a areia. Mesmo assim, no rasinho, o mar era uma aventura.


Certa vez, um vestido - de quem seria? o que fazia nas águas esverdeadas e espumantes do Paraná? - enroscou-se em minha perna, causando um estranho desespero. Parecia me puxar, prendendo os tornozelos com o vaivém das ondas. Precisei de ajuda para tirar.


Outra diversão era colher conchas fechadas, que eram colocadas em garrafinhas com água do mar. Com o tempo, partes do molusco apareciam. A gente ficava admirando aquele corpo mole esticando-se para fora da casca.


Algumas praias, como Caiobá, eram bravias e provocavam os destemidos. Eles nadavam além da quebra das ondas, onde se exibiam. Logo, porém, o fôlego se ia, os braços amoleciam e só então se davam conta de que o mar os puxava para longe.


Paulinho da Viola avisa, em Timoneiro: “O mar não tem cabelos que a gente possa agarrar”, mas “é ele quem me carrega como nem fosse levar”.


O drama se estabelecia com as mãos para o alto em pedido de ajuda. O público assistia à distância. Não havia bombeiros, celulares ou helicópteros. Cabia a algum pescador ou caiçara arriscar-se no resgate até que a vítima - viva ou morta - fosse retirada do mar.


Na praia, formava-se o burburinho: “Olha o afogado!”.


Às vezes eles chegavam à areia resfolegando, com os pulmões cheios d’água. Também surgiam inertes, de olhos fechados. E havia aqueles cujo sufocamento ficava evidente nos olhos arregalados saltando da face roxa.

Já sabíamos: era hora de recolher as coisas e ir embora, o passeio estragado, a lembrança do morto, os alertas da mãe (“o mar é muito perigoso, tem que ficar no raso!”) e a segunda-feira batendo na porta.


Na escola, era uma sensação contar aos amigos: “Eu vi um afogado na praia ontem!”.


O afogado deveria ficar assim, nas memórias trabalhadas pelo tempo e pela imaginação. Mas não. Ele anda assombrando nossa realidade com as mãos para o alto e os pés procurando o chão que não existe, buscando o ar desesperadamente, aspirando a espuma do mar esverdeado e bravo, fitando a terra firme no horizonte cada vez mais longe.


Ranulfo Pedreiro (Novembro, 2021)


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