• Ranulfo Pedreiro

Pedalando

A subida intensifica o esforço e reduzo a marcha, já resfolegando, as pernas quentes de tensão, os pneus patinando no cascalho bruto da estradinha que sobe a piscicultura, na Fazenda Experimental da Universidade Estadual de Londrina.


Péssima hora para um cachorro, desses que ainda latem para rodas, aparecer em perseguição. Pedalo com mais força, xingo a situação, aguardo a mordida que não vem. A bicicleta patina e, na lentidão em que eu estava confinado, o cachorro tornou-se um carrasco ágil, circulando com os latidos incômodos enquanto gasto o resto de energia em um trecho realmente difícil.


Logo o carreador toma postura mais horizontal, mudo para uma catraca menor, ganho velocidade. O cão fica para trás, ainda rosnando. Suando em bicas, comemoro a pequena vitória, secreta e prazerosa. Venci cerca de 1,5 quilômetro de subida a meros 5 quilômetros por hora – marca distante de qualquer ciclista com um mínimo de preparo. A ideia, aqui, não é ganhar velocidade, mas resistência.


Contorno o bosque da Universidade e me dirijo ao local onde, ainda estudante, caminhava para ver os macacos. Limpo improvisadamente a poeira da garrafa e a água desce garganta abaixo. Imagino uma cerveja, mas ela me deixaria indisposto para seguir por mais alguns quilômetros de terra, até alcançar o CTU, lá nos fundos da Universidade.


Agora a inclinação está a favor e deixo a bicicleta correr sem freios. As estufas experimentais vão passando e logo chego ao Hospital do Campus lembrando das cervejadas que frequentei ali. Pego o rumo da Prefeitura do Campus, viro à esquerda, outra subida aparece, aproveito o corpo quente para acelerar um pouco e... Pimba!


A marcha escapa, a perna faz força demais no vazio, o equilíbrio desaparece e tento evitar a queda dando largos – e grotescos – passos para encontrar algum controle. Foi feio, mas permaneci em pé – xingando o mecânico que regulou o câmbio com displicência. Se fosse em um lugar movimentado... E essa droga de marcha – a quarta da coroa do meio –, continua fugidia, provocando desconfiança em momentos decisivos.


Aproveito a descida na Cidade Universitária para alcançar 32 quilômetros por hora. Fichinha, tem gente que passa dos 70. Mas, sabe como é, não tenho aquela segurança toda e o quase acidente na UEL ainda estava na memória.


No Bar Todas as Tribos desço à direita, rumo ao Lago Igapó, outra descida de velocidade. Antes de chegar à próxima avenida, entro à direita, na marginal, que ainda não é completamente asfaltada. Logo, estou novamente na terra, o pneu prende um pouco mais.


Passo a ponte e entro na lateral do Igapó 4, devagar por causa dos pescadores, circundando a margem até alcançar o Igapó 3, na Faria Lima. Daqui para frente é fácil, seguindo pelo Igapó 2 até encontrar um vendedor de água de coco. Daí, circulo o Igapó 2 e 3 mais uma vez, rumo às mesinhas da beira do lago, no Iate Clube.


Nunca uma cerveja foi tão saborosa.


(2005)


Texto e foto: Ranulfo Pedreiro








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